O uso de inteligência artificial no setor financeiro avança, inclusive em aplicações de Compliance relacionadas à interpretação de normas do Banco Central do Brasil e do Conselho Monetário Nacional. Os ganhos de velocidade, produtividade e capacidade de processamento trazidos por essas ferramentas são reais.
Os resultados apresentados por essas plataformas, com linguagem clara e respostas imediatas, tendem a gerar uma sensação natural de segurança. Mas, como sabemos, essa percepção, por si só, pode não assegurar que a leitura e interpretação estejam completas. Uma resposta rápida e objetiva sobre a interpretação de uma norma pode parecer suficiente, mas nem sempre reflete as nuances que a prática de supervisão exige.
A questão principal, então, não é se a inteligência artificial é útil. É saber até que ponto uma leitura automatizada consegue refletir e responder com competência o que a prática regulatória de fato exige.
A área de Compliance sabe que a regulação do Sistema Financeiro Nacional não se resume ao texto isolado de uma norma. Há prazos de vigência distintos por segmento, normas complementares editadas em momentos diferentes, alterações sucessivas e, sobretudo, entendimentos construídos ao longo do tempo na relação entre as instituições e o órgão supervisor. Um imenso ecossistema de alta complexidade.
Uma análise automatizada identifica com precisão o que uma norma estabelece. A avaliação sobre como essa norma deve ser interpretada e aplicada na prática, no entanto, depende de um conhecimento que não está inteiramente contido numa análise isolada do texto normativo.
Uma decisão de conformidade apoiada exclusivamente nessa leitura pode não considerar um entendimento já consolidado pela supervisão, uma mudança de redação decorrente de alterações anteriores, ou uma particularidade de aplicação que só se revela a quem conhece o histórico regulatório da matéria e qual foi seu objetivo.
A regulação do Sistema Financeiro Nacional está em evolução constante, com novas resoluções, instruções e comunicados publicados e modificados continuamente. Nesse cenário, a inteligência artificial oferece uma vantagem real de velocidade e escala. Velocidade e escala, porém, não são sinônimos de entendimento correto ou adequado à situação.
Talvez o uso mais eficiente da inteligência artificial na área regulatória não esteja em escolher entre tecnologia e experiência, mas em combinar as duas: ampliar a capacidade de pesquisa e análise com IA, e contar com profissionais experientes para validar aquilo que efetivamente importa para a instituição.
Diante de uma decisão relevante, a pergunta mais útil talvez não seja apenas o que a inteligência artificial encontrou, mas se essa interpretação foi validada por quem tem experiência prática construída junto à supervisão bancária.
